terça-feira, junho 15, 2004

Abandonada

O cheiro era mesmo monstruoso, hostil, inóspito. Vinha de dentro de uma casa abandonada, isolada por outros tantos prédios velhos da avenida. Era a única casa da rua pela qual Dominique passava todos os dias. Precisamente às 9:45 da manhã.

O local nunca cheirou bem mesmo. À noite, servia de abrigo aos mendigos, que dormiam embaixo da varanda. De manhã, Dominique ainda os via fugindo do sol, puxando os cobertores por sobre as cabeças.

Todo dia era a mesma coisa: ela colhia uma flor no jardim do prédio vizinho, enfiava no nariz e passava pela casa sem se incomodar (muito) com o mau cheiro dos mendigos. Precisamente às 9:45 da manhã.

Mas naquela manhã, algo estava diferente. Não se sabe se o tempo nublado a influenciou, mas sentiu um cheiro forte de problema no ar. O aroma suave da flor esmagada em suas narinas não bastou naquele dia para disfarçar o odor fétido dos mendigos. Alguma coisa apodrecia.

Sacou da bolsa sua água-de-cheiro e despejou um tanto no lenço vermelho que providencialmente escondia seu pescoço naquela manhã. Amarrou-o no rosto feito “cowboy” e foi investigar. As mulheres realmente são mais corajosas. Ou a curiosidade é tanta que supera com facilidade qualquer medo. As mulheres simplesmente não conseguem ficar curiosas.

À primeira vista, Dominique não reparou nada de anormal naquela casa sombria. A casa estava às moscas - claro que não estava vazia, mas cheia de moscas - com sujeira por toda parte, mendigos dormindo amontoados, garrafas vazias, papelão espalhado e um cão velho, que mal conseguiu abrir os olhos quando sentiu a presença perfumada de Dominique.

Para o espanto dela, dentro da casa havia mais de vinte mendigos, todos dormindo. Da rua e do portão da frente, via apenas três ou quatro na varanda, não imaginava todo aquele complexo residencial dentro da casa. Tinham até um fogareiro enferrujado e uma copa improvisada com caixa de frutas. Sem as frutas, claro.

Seus olhos circularam por toda a parte térrea da casa. Embaixo, além da varanda, a casa possuía uma ampla sala de estar quadrada, com uma sala de jantar, também ampla à esquerda, que dava acesso à cozinha. Num dos cantos da sala, oposto à sala de jantar, subia uma bela escada curvilínea, de piso de mármore e corrimão de metal dourado.

Esquivando-se dos mendigos que dormiam na sala de estar, Dominique afastou o lenço do nariz por alguns instantes para farejar a origem daquele cheiro horrível. Tinha alguma coisa estragada, podre ou morta. Nunca havia sentido o cheiro de gente morta, mas identificou logo que essa devia ser a hipótese correta. E o cheiro vinha da parte superior da casa.

Percebeu alguma movimentação na sala de estar e enquanto galgava com cuidado os degraus da escada, sentiu medo. A coragem estava desaparecendo junto com a curiosidade. Pensou em fugir, mas já estava no meio da escada.

Dominique, como o próprio nome sugere ou faz imaginar, era gostosinha. Daquelas de aparência frágil, mulher com cara e corpo de menina. Na verdade mais com cara de menina mesmo. No entanto, seus olhos pretos (não como jabuticabas, apenas pretos, afinal a cor preta não tem variação), pretos e investigativos, diziam tudo: era fogo na palha a menina! Do tipo baixinha invocada, sabe? Doce, mas invocada.

Acontecia às vezes de alguém distraído fazer uma brincadeira e ela, não entendendo ou não gostando, responder com uma agressão verbal que doía mais que tapa na cara. Daqueles ardidos e injustos.

Cansada de ouvir histórias tão macabras quanto insólitas, Dominique sentiu um frio na barriga, quando releu em sua mente a manchete do Notícias Populares: “Vagabundo estupra velha decrépita no metrô” e no subtítulo a continuação: “e sai com a calcinha na cabeça!”. Morria de medo de ser estuprada.

Surgiu daquela movimentação da sala de estar um mendigo se espreguiçando. No início o mendigo, coçando o saco, não percebeu a presença da invasora, mas tão logo levou as mãos aos olhos para tirar a remela que o impedia de enxergar, notou a estranha no meio da escada.

Esfregou os olhos para ter certeza da visão e, arregalando-os e piscando-os sincronizadamente, percebeu que não estava mais sonhando. Deus existia, enfim. Ao menos uma Deusa existia e estava ali, logo ali, na escada da sua casa, aguardando-o.

O mendigo, que se chamava Joselino (de Josenilda, sua mãe, filha de José e Nilda e de Severino, seu pai, filho de Severina e Raimundo), sorriu sem mostrar os poucos dentes que lhe sobraram. Armou aquele olhar artístico do Tarcísio Meira quando estava com um tumor na cabeça e caminhou lentamente na direção de Dominique. Ele não deixaria escapar aquilo que queria; precisava; desejava.

Ela, petrificada e aterrorizada, cada vez mais, grudou as costas na parede e não conseguiu se mexer. Girava apenas os olhos, percebendo que ela era o destino daquele mendigo esquisito. Pensou em correr, mas não conseguiu. Travou.

Joselino subiu os degraus necessários e segurou com seu braço esquerdo a pequena cintura de Dominique. Ela não se mexia e agora seus olhos miravam uma enorme mancha negra no teto, que ela sequer viu ou pensou o que seria. Ele, então, pôs a mão direita na cabeça de Dominique e chegou mais perto farejando seu perfume. Achou-o horrível.

Afastou novamente a cabeça e deslizou sua mão uma única vez pelos cabelos pretos e curtos dela. Dominique virou o rosto de lado e colou ainda mais na parede. Joselino alisou o rosto dela com as costas da mão e aproximou-se para beijá-la.

Desceu sua mão ainda mais, pelos ombros dela, e tentou desgrudá-la da parede. Ela resistiu e ele desistiu do beijo: o cheiro daquele perfume forte doía-lhe a cabeça por demais.

Joselino forçou-a e conseguiu por a sua mão nas costas de Dominique, que quase desmaiou. Com um movimento rápido, ele então subiu ambas mãos pelas costas delas e, num abraço que poderia até se dizer gostoso, conseguiu tirar-lhe a bolsa, que, pendurada no ombro direito, estava presa entre as costas de Dominique e a parede.

O gesto de Joselino, para Dominique, foi uma bênção e a impediu de desmaiar. Ela não seria estuprada. Pelo menos não naquela hora.

Joselino, tomou-lhe a bolsa com violência, abriu-a como pôde e despejou todo o (incrível) conteúdo no degrau superior, que estava mais à mão. Da bolsa caíram, entre muitos papéis e recibos de compras amassados, a carteira (ela tinha cinqüenta e uns trocados), a escova, a lixa, o rímel, o batom, três canetas, um absorvente interno, um par de meia-calça, uma cartela de comprimidos de aspirina, camisinhas (muitas), Cebion, moedas, balas, enfim, tudo que a Física diz não caber naquela bolsinha.

Espantado com o conteúdo, Joselino separou a carteira dos demais objetos, menores, e pegou a aspirina, respirando aliviado. A ressaca teria um fim. Engoliu a seco, um a um, uns três ou quatro comprimidos e desceu as escadas, voltando a dormir o sono dos justos.

Dominique ainda ficou uns bons segundos espantada com aquilo tudo. “Não fui estuprada, nem assaltada! Por quê?”, pensou ao recolher os demais objetos que se espalhavam dentro da bolsa como se cada um conhecesse seu lugar e soubesse instintivamente onde deveria se alojar.

Sem medo e no meio da escada, ela decidiu continuar a busca que quase lhe havia rendido uma parada cardíaca. Subiu o resto da escada com pressa e, verificando rapidamente que não havia vivalma nos demais quartos, foi direto ao quarto do casal que ficava no final do corredor. Havia três quartos na casa, obviamente enormes para os padrões atuais, e apenas um banheiro, também gigantesco, que servia a todos os quartos, inclusive o de casal.

Dentro do quarto de casal também não encontrou nenhuma alma viva, apenas um corpo. Uma mulher, quase sem roupa, exalava aquele cheiro, agora inconfundível, de morte. Não havia sangue, nem sinais de violência e uma carta ainda presa à mão da morta confirmava o suicídio.

Assustada, Dominique correu o caminho de volta à rua e chamou a polícia. Dez minutos mais tarde, ela apontou o interior da casa para os policiais. Os policiais jogaram o corpo no carro e partiram com o alarde peculiar. Ela esqueceu de entregar a carta fúnebre à polícia.

Já no escritório, atônita em frente ao computador, ela leu a carta, manchada de lágrimas:

“Querido Darcy,

Não suporto mais essa vida. Enquanto você fica na banca de jornais, eu fico em casa pensando nele. Quando estou em seu lugar, na banca, você dorme em casa, sem imaginar o que passa pela minha cabeça.

Resolvi tomar essa atitude covarde porque não agüento mais e não queria fazer você sofrer mais do que deve estar sofrendo agora. Seu desgosto seria insuportável pra mim. Você não merece sofrer!

Não te amo. Acho que nunca te amei. E resolvi dar um fim nessa história e no meu sofrimento por ter te traído com ele. Você jamais vai entender como pude me apaixonar por outro homem, nem eu mesma sei como tudo aconteceu. O fato é que eu estava apaixonada por outro homem. Não vou dizer quem é, mas posso te garantir que foi amor de verdade.

Ele não me quer mais e eu não quero mais viver. Fui abandonada.

Adeus!

Giovana

Ps.: Por favor, não tente descobrir qual desses mendigos era o meu amante.”

segunda-feira, junho 14, 2004

Nu

Um dia resolveu tirar as roupas. Tudo. Ficou completamente nu. Sujas, as roupas já o estavam incomodando. Não tinha onde lavá-las, já que a água da fonte da praça era mais suja que as próprias roupas. Todos os mendigos, inclusive ele, mijavam e defecavam naquela fonte. Era a latrina mais próxima, nunca houve banheiro público. Lavar nas torneiras das casas comerciais depois do expediente dava muito trabalho, então ficar sujo era a melhor alternativa.

Claro que tirar as roupas não foi uma falta de opção ou de uma escolha pela higiene, mas uma decisão tomada junto com a pinga e o crack, a felicidade plena por cinco ou dez minutos. Eufórico, o mendigo concluiu sem muito esforço que andar vestido era uma convenção da sociedade e, sendo ele um excluído da sociedade, não tinha obrigação nenhuma de obedecer essas regras de comportamento.

Incrivelmente, ainda pensou: “Ora, se a sociedade tem a obrigação de dar comida, um teto, um emprego e saúde; e não faz nada disso, por que tenho que andar vestido?”. Ainda arrumou outro argumento: “Depois, eu fumo crack todo dia, o que é extremamente proibido; todo mundo vê e ninguém se importa. Por que vão se importar se eu andar sem roupa por aí, isso não é nem crime!”.

Pelado, o mendigo entrou na padaria da esquina e pediu para usar o banheiro. O dono da padaria, mais assustado do que os seus fregueses, pôs a caneta atrás da orelha e correu para cobrir o mendigo.

- Estás maluco, ó rapaz! Onde estão tuas roupas?!
- Joguei fora...Posso usar o aposento sanitário?
- O que estás a me falar? Cobre-te com este avental e some daqui!

O mendigo vestiu o avental e insistiu:

- Será que agora o senhor me permite usar o banheiro?
- Some, já disse, o banheiro é para uso exclusivo dos fregueses.
- Então se eu comprar um copo de pinga com essa moeda posso usar o seu banheiro?

Antes mesmo de obter a resposta negativa, dois garçons conterrâneos do mendigo o expulsaram da padaria. Ficou ali, jogado na calçada, rindo da situação. Levantou-se ainda com um sorriso no rosto, tirou o avental calmamente e foi até a fonte da praça.

Duas velhinhas passavam pela praça enquanto o mendigo fingia estar apenas se banhando na fonte. Quando perceberam a nudez do mendigo pararam para ver. A velhinha mais sorridente riu e comentou:

- Que homem bonito, não? Quem me dera o falecido tivesse um corpo desses, hein Carmem?
- Que pouca vergonha! Esse pedinte devia ser preso!
- Mas por quê? Ele não está fazendo nada demais. Está só se banhando.
- Vou chamar a polícia, isso sim! Agora a gente é obrigada a ficar vendo essa sem-vergonhice? Bem aqui no meio da praça?
- Calma, Carmem! Vamos embora, você não precisa ficar olhando. Vem, deixa o menino em paz.
- Vamos, mas se eu encontrar um policial no caminho vou avisar sim!

Passaram as duas velhinhas e o efeito do crack. No seu cantinho de rua, o mendigo tomou mais um talagada de pinga para matar a fome e talvez a depressão, que empurrava as lágrimas para fora. Percebeu que estava sem dinheiro e, angustiado porque não poderia bancar a próxima fissura de crack, não segurou o choro. Temia mais a crise de abstinência que a própria morte.

Sentados na frente de um prédio abandonado do centro, dois mendigos, colegas dele, fumavam crack em plena luz do dia, sem se importar com os pedestres apressados, que somente se revoltavam pelo transtorno de mudar de calçada para atravessar aquele trecho sem passar na frente dos viciados.

O mendigo nu se aproximou e pediu um pouco.

- Sai fora cara! Esse bagulho é nosso, custou um toca-cd inteiro, com frente e tudo! Sai pra lá!
- Só uma fumadinha rápida, vai?!
- Não!

Definitivamente não é uma classe unida. Solidariedade é ficção, mas a paciência é uma virtude, quase uma necessidade de sobrevivência. Dois minutos depois, os mendigos fumantes já estavam sorrindo, felizes da vida, e ofereceram a droga para o mendigo nu. O diálogo ríspido de poucos minutos atrás deu lugar a uma conversa tão amistosa quanto desconexa. Coisa de amigos. Viciados, mendigos, mas amigos.

Feliz novamente, o mendigo nu saiu de lá antes que seus colegas voltassem à realidade e lhe surrassem por ter fumado do crack deles.

Dobrou a esquina extasiado, sorrindo para o nada, quando sentiu uma mão forte segurando seu braço esquerdo. O policial meteu-lhe as algemas e arrastou-o pelos cabelos até a viatura. O mendigo não reagiu. Ainda tomou um soco na cabeça para auxiliá-lo a entrar no camburão, mas não reagiu. A felicidade ainda era plena.

Na delegacia, jogaram-lhe um cobertor por cima dos ombros e puseram-no na frente do delegado de plantão.

- E então, pinéu, por que você está sem roupas?
- Gosto.
- Gosta de mostrar a bundinha por aí, é?
- Gosto.
- Bota uma roupa nesse doido e joga ele na 3-B!

O coitado do carcereiro...É inevitável acrescentar o adjetivo “coitado” porque os carcereiros, coitados, passam quase tanto tempo na cadeia quanto os presos, talvez até mais, já que os presos cedo ou tarde são soltos ou fogem. Pior, os carcereiros comem da mesma comida azeda porque não podem pagar a sua própria; correm altíssimo risco de vida todos os dias e ainda são obrigados a trabalhar, os presos não...Pois então, o coitado do carcereiro obedeceu o delegado, vestindo o mendigo e jogando-o na cela 3-B.

Tão logo se viu na cela, o mendigo tirou calmamente as roupas e as colocou num canto. Ainda estava feliz. O carcereiro, com mais medo que o mendigo, foi avisar o delegado.

- Doutor, o mendigo ficou pelado de novo...
- O quê?! Eu não mandei você vestir o desgraçado?!
- Eu botei umas roupas nele, mas quando entrou na cela, tirou tudo...Que que eu posso fazer?
- Deixa comigo!

O delegado então pegou o cassetete que fica embaixo da sua mesa e partiu para a cela 3-B, rachando o chão e bufando feito touro bravo. Mandou abrir a cela e entrou:

- Que que cê tá pensando?! Que aqui é casa da mãe joana?...Bota logo essa roupa senão vai apanhar...
- Eu já apanhei.
- Vai apanhar mais.
- Tá bom.

O delegado achou que esse “tá bom” significava “tá bom, vou colocar a roupa”, mas o “tá bom” do mendigo era de “tá bom, pode bater”. Por uns dez ou vinte segundos ficou assim: o delegado olhava para o mendigo, olhava para as roupas, olhava para o carcereiro, olhava para os outros presos da cela e voltava a olhar para o mendigo. Não estava acreditando.

- Cê não vai por a roupa?!
- Não.
- Como não? Quer apanhar?
- Não.
- Então bota logo essa roupa, senão eu...
- Não.

O delegado estava sem saída, ou espancava o mendigo e corria o risco de alguém o denunciar para a Corregedoria ou ficava desmoralizado na frente dos carcereiros, policiais e presos que assistiam – segurando o riso – àquela cena insólita. Bateu, bateu, bateu muito, até desmaiar o mendigo. Botou a roupa no corpo desmaiado do mendigo e o algemou.

- Aqui quem manda sou eu - bradou o delegado, estufando o peito feito galo novo que acaba de reproduzir.

O carcereiro, desconfiado, foi tentar acordar o mendigo. Nada. Estava morto. O delegado, que ainda estava na cela, percebendo o acontecido, baixou a cabeça por um instante e suspirou pensativo.

Retomando o ar de senhor da situação, mandou energicamente o carcereiro tirar as algemas do mendigo e saiu da cela para chamar o rabecão. Ia alegar uma briga entre presos e ponto final.

Quando voltou para a cela, o delegado se assustou.

- Que é isso? Por que o mendigo está pelado de novo?
- As roupas são minhas, doutor - disse o carcereiro, disfarçando o sorriso.

O mendigo foi enterrado nu.

sábado, junho 12, 2004

A Dama e o Vagabundo

Fazia muito frio naquela noite. Garoava e ventava forte. A lua minguante se escondia nas nuvens carregadas e parecia riscada pela água forte da chuva. Embaixo do cobertor sujo e molhado, o mendigo fedia e imaginava porque enfiara a faca na barriga da companheira. Chamavam-no Vagabundo.

Seus pés encardidos como uma crosta de pneu, de unhas grandes, pisavam raivosamente sobre sua imagem refletida nas poças escuras, negando sua própria existência. Inconscientemente queria ser outra pessoa, menos por sua condição de mendigo, mais pelo crime incompreensível que acabara de cometer.

A mendicância era sua profissão há anos, desde que bebeu num bar a casa que seus pais lhe deixaram. Onde e como estariam eles agora? Com certeza melhor que ele, que nunca quis estudar, muito menos trabalhar. Quando menino, vivia surrando os colegas de escola e azucrinando os professores. Foi expulso do colégio e fugiu de casa quando explodiu sem querer o vaso sanitário em que um colega defecava. Enfim, a alcunha lhe fazia jus. Na pior das hipóteses, estivessem pobres ou mortos, ao menos seus pais não haviam matado ninguém.

O coração dispara no ritmo da sirene que se aproxima, não há mais tempo para pensar! A fuga diminui o frio. As ruas, as lojas, os postes, são todos borrões coloridos na curva dos olhos. Corre sem rumo, pra qualquer lugar, desde que não ouça mais o som ensurdecedor de seus próprios atos. Entre as imagens destorcidas pela velocidade de suas patas, não consegue interromper o filme que protagonizou há pouco. A única cena desse filme se repete indefinidamente; logo termina, começa de novo, e com ela, a dor, a angústia, o arrependimento.

Cruelmente revive a cena em sua mente...Longe dali, em outra praça - que poderia ser a mesma de tão suja - em meio aos entulhos, vê a esguia silhueta da companheira na sombra do lixo. Ao lado dela, outro mendigo. Súbito, pára: começa a suar instintivamente. Pensa um pouco, negando o óbvio e conclui ter visto sua própria sombra; mas não, as suspeitas que não existiam antes se confirmaram agora: era sua companheira com o amante!

Nesse momento, a fúria, que só se sabe que existe nessas horas, domina-o por completo. O sangue de suas veias já saltadas, especialmente na testa e têmporas, quase evapora feito o suor frio que lhe escapa pelos poros encardidos. Seus olhos, vidrados e irreconhecíveis, vêem a raiva explosiva se esvair somente no momento em que enfia a faca nos escombros habitados. Alívio.

A fúria contida ao se dissolver o deixa tonto, confuso por um instante, mas a chuva - benção de Deus - condensa seu sangue e o acalma. A solidão então se aproxima e ao seu corpo molhado e suado se unem as lágrimas: frias, mas verdadeiras, arrependidas, assustadas.

Tal como havia brotado repentinamente a fúria, a habilidade e o poder de concentração de um assassino profissional baixam no mendigo como implantes instantâneos, de uma hora para outra, sem origem conhecida, de uma frieza inconcebível até mesmo para ele, um mendigo acostumado com as calçadas violentas da cidade. O Vagabundo limpa a faca manchada de vida e morte no cobertor, que já quase caía dos ombros, e a arremessa no bueiro. A enxurrada que surra o bueiro, leva a arma, mas não a imagem do crime, nem seu sentimento de culpa.

Conhecera a Dama na fila do albergue, também numa noite fria, porém seca do inverno passado, quando ambos dividiram a colher de plástico e o prato raso, sujo de um espaguete pouco mais que congelado. Encontraram seus lábios num fio de macarrão e dormiram juntos pela primeira vez naquela noite.

É difícil imaginar como o Vagabundo confiou de imediato na mendiga. Nem bem haviam se conhecido e já se viram abraçados como namorados. Também naquela mesma noite, em que beberam juntos (ela bem mais), percebeu que a Dama era alcoólatra. Daí vinha seu apelido, Dama da Cachaça, mas o Vagabundo preferia chamá-la somente de Dama, era mais romântico.

O amor era eterno, a felicidade existia, passaram a fazer tudo juntos. Enquanto ele fingia ser paraplégico, ela furtava a carteira dos desavisados caridosos. Às vezes engrossavam a população que pede esmolas nos faróis; outras, simplesmente assaltavam os motoristas frágeis e distraídos. Tudo depois era dividido em comunhão total de bens.

Certa vez, quando a féria foi excelente, divertiram-se desprezando esmolas. “Obrigado, minha senhora, não aceito moedas” ou, quando ofereciam comida, “não, obrigada, já jantei” ou “obrigada, mas não como carne”. Ver o espanto das pessoas que se dispunham a ajudar era a melhor coisa. Pouco importava se no dia seguinte sentiriam fome, a alma também precisa se alimentar e a diversão era o melhor jantar.

Foram muitas as noites de amor. A fantasia era fazer amor entre quadro paredes ou “do lado de dentro”, como eles costumavam dizer. O fato é que se encaixavam com perfeição. Nem ele, nem ela haviam amado tão intensamente antes. Claro que sexo sempre é bom, mas com ela era diferente, sentia um prazer maior, algo indescritível.

Quando o amor é verdadeiro, o sexo é sublime. O gozo é limpo e perfeito. Tudo à volta parece desfocado, até mesmo os transeuntes que olham de rabo de olho, fuzilando com nojo e desprezo seus corpos em movimentos induvidosos sob o cobertor. Ninguém existe. Nem os próprios amantes, que durante aquele ato convulsivo estão em outro lugar, noutra dimensão.

Depois do amor, os restos de comida são banquetes, a pinga desliza suave pela garganta feito champanhe e as bitucas de cigarro exalam perfumes cubanos. Os corpos abraçados formam um só, tal como esses que o Vagabundo observava incrédulo na sombra do lixo.

Nessa hora, seus olhos cerram vendo a companheira abraçada a outro mendigo e a cena do crime entra em cartaz novamente.

Parado, ele vê o mendigo-amante se afastando dela aos beijos, como se conhecessem há anos. “Como é possível?”, ele pensa, “nos amamos tanto. Ela me chamava de amor?! De amor!!”.

O amor nada mais é que uma bolha de sabão. Surge imprevisível, de forma simples, sempre brilhante, reluzente. O amor é sutil e delicado, colorido e perfeito, embriaga por hipnose. Tudo que se vê através dele é arco-íris com a certeza do pote de ouro no final. É leve: flutua ao sabor da brisa; pode-se até pousá-lo nas costas da mão, mas se desfaz ainda com mais facilidade do que é formado. Desaparece, vira água e sabão, um sentimento disforme, confuso, repleto de ingredientes de tempo e sentimentos, que de tão complexo, misturado, fundido se torna impossível formá-lo novamente com aqueles mesmos componentes. Cada bolha é única.

Vendo o pesadelo, ele corre em sua direção, puxa seus cabelos e golpeia com ódio a barriga da mendiga. Diversas vezes. Na seqüência, beija sua boca, apavorado, calando o grito agudo que já ia saindo. Na demência do crime, tenta, inutilmente, estancar com as mãos o sangue espesso que jorra, rosa, misturado na água suja da chuva.

Desesperado, carrega a Dama em seus braços feito herói, buscando, sem sucesso, socorro. A chuva e a noite exprimem sua tristeza e terror enegrecendo a escuridão assustadora e umedecendo suas lágrimas secas. Ninguém nas ruas, nenhuma alma viva. Nenhuma mesmo, nem a dele, muito menos a dela.

Chama por Deus; pelos mendigos, que, acostumados, dormem sem se importar com ele ou com a chuva.

Conformado com a morte da companheira, deita-a com delicadeza entre os escombros do lixo, na esperança inútil de que seu corpo, cada vez mais frio e leve, fique confortável e se misture sem deixar vestígios.

No dia seguinte, fingindo tudo aquilo não ter ocorrido, embora ainda sentisse uma dor de ausência no peito, caminha desordenadamente à procura da Dama e a encontra num local diferente daquele no qual a havia deixado ontem. Cuidadosamente disposta em posição fetal pela força da chuva, estava morta.

sexta-feira, junho 11, 2004

Divino Encontro

O mendigo revira o lixo, sem pressa, como quem passa com o prato num aparadouro de restaurante por quilo. Sua única responsabilidade na vida é manter-se vivo, por isso cuida das refeições com muito cuidado. O lixo parece atraente. Olha um resto aqui, dispensa um osso ali, enfim seleciona de acordo com o seu apetite e paladar. Busca a sobremesa, que irá desfrutar depois: o toque final de seu jantar ao ar livre, sob a luz da lua crescente. Quase bucólico.

O cheiro podre da brisa da noite não incomoda mais. Talvez porque seja seu próprio perfume rodeando seus movimentos ou porque já esteja acostumado mesmo. Isto explicaria também as moscas, sempre aos montes, mas fiéis e companheiras, que junto do cão sarnento são suas fiéis companheiras. Se não tivessem tão pouco tempo de vida, daria nomes e retribuiria a atenção.

Ao chegar no último saco de lixo, meio desapontado por não ter encontrado um delicioso resto de maçã mordida, o mendigo esbarra na porta dos fundos, que, convidativa, abre-se. Não sabia exatamente o que era, imaginava um restaurante ou um pequeno hotel, porque muita gente chegava pela frente e os cozinheiros eram vários, dava para ver a movimentação dentro da cozinha. Imaginou ser um desses dois tipos de estabelecimento também pelo excesso de desperdício da comida - tinha em seu prato um frango, ainda quente, apenas sem asas. Ainda pensou: "qual a servidão das asas num frango assado?".

A luz inebriante que vinha da porta – e que aumentava conforme ela ia se abrindo – hipnotizou-o de uma tal maneira que o fez esquecer a regra número um da mendicância: ninguém o quer por perto! Com os dois pés já no corredor, velozmente voaram imagens em sua mente. Provavelmente efeitos colaterais da luz hipnótica que vinha da cozinha e, contrariando todas as leis da Física, fazia curva no corredor como um veio d’água a procura do melhor curso.

Ouvia – agora em estéreo – os sons monótonos que escutara lá fora. Lá da rua, os ruídos eram roucos, regados a um ranger de pratos e talheres, acompanhados surdamente de música chata. Agora não, do lado de dentro, no corredor, ouvia as vozes aveludadas e apetitosas, a música tenra - mas ainda chata - algo sublime, apenas quebrado em alguns instantes pelas pedras de gelo girando nos copos.

Ainda estático, sentado no meio do corredor, o mendigo degustava com incrível prazer e de olhos fechados o prato feito do lado de fora. Os aromas diferentes em que estava mergulhado alteravam o sabor do frango aseta. Deixavam-no tão gostoso que o mendigo decretou: "Isto é obra de Deus!".

De repente, uma porta se abriu. "Pronto", pensou, "sentiram meu cheiro!". Mas não, o smoking bêbado passou por ele, chegou a cumprimentá-lo sem olhar nos olhos e desviou cambaleante para a esquerda, buscando a cozinha. Dois minutos depois, assustando mais uma vez o mendigo, saiu de lá com uma garrafa de uísque numa das mãos e três copos com gelo equilibrados, na outra. Segurava-os pelos dedos, numa proeza digna de robôs de última geração.

Mas o mendigo não resistiu e exclamou para si: "Meu Deus do céu, isso não vai dar certo!". E realmente não deu. Um dos copos escorregou e ia caindo, mas foi agarrado pelo mendigo, perto do chão.

A situação pedia um agradecimento e o bêbado, naquela altura, mais versado em encher copos do que em palavras, aproveitou a posição em que o mendigo segurava o copo e serviu uma dose robusta de uísque, ordenando:
- Venha!

Por um instante ou dois, o mendigo hesitou, prevendo a frustração de ser rejeitado no ambiente em que estava para adentrar, mas aí seu inconsciente autorizou: "Que mal há se fui convidado?".

De fato, o pior que podia lhe ocorrer seria voltar a revirar o lixo do lado de fora, ao que já estava habituado, ou então, uma surra; esta última alternativa não lhe pareceu provável. Mesmo assim, caiu-lhe uma lágrima de suor frio – efeito da lembrança das surras passadas.

A cena que se passou a seguir não poderia ter sido mais lúdica. O bêbado – que o mendigo soube depois se tratar do dono da festa – envolvendo-o num abraço (com o braço dos copos), ia de roda em roda, alegremente, apresentando-o aos convidados como seu irmão. Por óbvio que ninguém contestou o parentesco inexistente, pois, ou estavam bêbados demais, ou simplesmente não se interessavam pela vida do bêbado. A maioria somente estava na festa para aproveitar a boca-livre.

É curioso como são as coisas. Quanto mais rico o sujeito se torna, menos ele quer gastar e mais gosta de boca-livre. Os pobres, ao contrário, são orgulhosos e dificilmente aceitam favores ou coisas de graça, preferem pagar pelo que consomem. Mas o mendigo não era pobre, era miserável, ou melhor, mendigo e, nessa condição, o orgulho é um sentimento impensável ou, pelo menos, relativo e submisso à necessidade.

Depois de ambientado na festa, o mendigo se libertou do bêbado e começou a se revezar entre comer, beber e guardar nos bolsos. Era esperto o suficiente para não comer com muita ansiedade, procurava não chamar muita atenção. Disfarçando, colocava um guardanapo na frente da boca, bebia um pouco, mostrava seus poucos e sujos dentes para a platéia, que, assim, desviava o olhar. Ninguém gosta de fazer contato visual com mendigo. A chance dele lhe pedir alguma coisa é enorme.

Lá pelas tantas, com o bucho forrado, o mendigo reparou que estava meio alcoolizado. Quando bebe pinga, as talagadas que dá deixam-no bêbado de uma só vez, a ponto de quase desmaiar e a partir de então não se lembra de mais nada. Mas na festa, não foi assim. Bebeu paulatinamente, entre garfadas e foi ficando embriagado aos poucos.

Aproximou-se de um senhor de idade avançada, com ar sereno, de barba grisalha, bem aparada e olhos profundos – sempre dizemos olhos profundos quando são azuis ou delineados por olheiras – este último o caso desse senhor.

- O senhor sabe me dizer onde fica o banheiro dos homens? – iniciou o mendigo.

Sem responder à pergunta, o velho replicou:

- É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus!

O mendigo, repassou mentalmente o diálogo e, apesar de bêbado, julgou que a resposta não tinha conexão com a pergunta. Tentou um ajuste:

- Meu senhor, não sou rico. E eu só quero entrar no banheiro... – Esperou a reação.

O senhor desenhou um sorriso e insistiu:

- A penitência é o caminho da salvação, meu filho!

Nesse momento, o mendigo teve certeza de que não estava se fazendo entender. Irritou-se:

- Você sabe ou não sabe o caminho do banheiro?!

- Siga os passos do meu filho e serás salvo!

O mendigo olhou para os lados e viu um moço andando confiante numa linha reta. Supôs ser o filho do senhor que se encaminhava para o banheiro e o seguiu, agradecendo meio contrariado.

Defecou como um rei. Demorou-se no trono espaçoso e confortável, sorrindo feito criança, num êxtase inexplicável, sem se importar com o faxineiro que cuidava do banheiro. Divagou bastante e – como costuma acontecer nos banheiros – e matutou sobre as frases desconexas daquele senhor "...Reino dos Céus...Caminho da Salvação...Siga os passos do meu filho...". Na sua confusão bêbada, concluiu com espantosa clareza que aquele senhor só poderia ser uma pessoa nesse mundo!

Saiu do banheiro mais aliviado, apressou o passo e, identificando o senhor no meio da multidão, foi até sua presença e perguntou:

- O senhor é Deus?!

Aquele homem sereno, grisalho, arqueou as sobrancelhas e quis ouvir a pergunta mais uma vez:

- Perdão?

O mendigo, zonzo pela bebida, não compreendeu o tom de voz. Imediatamente passou a socar o homem até fazê-lo desmaiar no chão, na frente de todos. Olhou com altivez e desprezo para Deus caído no chão e gritou:

- Não perdôo!

Sob os olhares assustados da festa em silêncio, saiu calmamente com a leveza do dever cumprido.

quinta-feira, junho 10, 2004

Ônibus

Ao vê-lo entrar no ônibus o motorista temeu por um instante que o pacote de papel de pão, que o mendigo trazia debaixo do braço, fosse uma arma. O formato realmente poderia sugerir um revólver, mas, na verdade, a paranóia do motorista, que inclusive tinha sido refém outro dia mesmo, ajudou a desenhar a arma dentro do saco pardo. Em se tratando de mendigo e bêbado – e disso o perfume não deixava dúvidas – imediatamente o motorista imaginou uma garrafa de pinga (pela metade) dentro do pacote amassado.

Como de costume, mas com maior dificuldade por conta da velocidade do ônibus e de seu estado alcóolico, o mendigo passou por baixo da catraca, enquanto o cobrador resmungava, ainda sonolento. O cobrador não estava preocupado com os cofres da empresa de ônibus, mas com o inoportuno que atrapalhava o sono dos justos.

O ônibus estava às moscas, pois o motorista imaginava que conduzindo em alta velocidade o tempo também iria passar mais rápido. Corria feito louco e só parava nos pontos para permitir que os passageiros descessem – isso se o fizessem entre os segundos que levava o abrir e fechar das portas traseiras.

A velocidade do tempo é mesmo relativa, como já disse o tal do Eisnten, mas só para diminuir o tempo. E naquele momento, o tempo diminuiu. Naquele exato instante em que se cruzaram os olhares do mendigo – duplicado – e da moça pudica, cheirosa e calada, que estava sentada mais ou menos no meio do ônibus, o tempo encurtou. Nesta porção lenta de tempo, a jovem, percebendo a aproximação cambaleante do mendigo, juntou seu corpo à janela instintivamente num ato de repugnância. Mas, como a interpretação do ato depende mais de quem vê do que de quem pratica, o mendigo teve a nítida impressão de que a moça estava lhe oferecendo a vaga ao seu lado.

Várias forças universais se conjugaram para determinar que o mendigo devia mesmo sentar ao lado da menina, agora, mais assustada que nunca.

Primeiro, a força centrípeta: com a curva do ônibus à esquerda, o corpo fétido do mendigo tombou também para o lado em que a moça estava – aqui também agiu a força do destino, pois a curva poderia muito bem ter sido para o outro lado ou mesmo ter sido feita mais cedo ou mais tarde. A força do álcool, que retirou a força de sustentação do mendigo, impediu que ele conseguisse segurar em algum lugar e evitar seu tombo. Por fim, a força da gravidade, inexorável, pôs a bunda do mendigo no banco.

A moça, com um misto de medo e nojo, encolheu-se ainda mais no canto e virou o rosto, fingindo – como se pudesse disfarçar seu sentimento de horror e ânsia de vômito – apreciar a paisagem, que, além de feia, não era mais que um borrão de cores e cheiros da cidade.

O ônibus estava velocíssimo e por isso mesmo o corpo da moça invariavelmente tocava o do mendigo, que, anestesiado, não sentia coisa alguma.

No entanto, o mendigo começou a sentir alguma coisa, mas não no plano físico, apesar da palpitação que o sentimento lhe impunha. Lembrou, sabe-se lá porque, que não fazia sexo há pelo menos dois anos e ali estava, ao seu lado, uma bela e disponível mulher a lhe tocar nas coxas.

O olhar desfocado do mendigo, mas na direção da moça, não deixava margens a dúvida. Olhou-a de baixo a cima, demorando-se mais nos seios, que, afinal, encontravam-se na melhor posição dentro de seu campo de visão limitado, mas parou seus olhos no rosto da moça.

Pressentindo esse olhar invasivo, demorado, estático, a mulher, quase em pânico, contorceu-se o suficiente para, evitando o contato visual com o mendigo, buscar ajuda dos demais passageiros, sem, contudo, dizer palavra. Apenas virou a cabeça para trás e, com os olhos arregalados, gritou surdamente por ajuda. Os poucos passageiros que seus olhos alcançaram, ao perceberem por distração o pedido de ajuda, correram em desviar seus olhos para a janela do ônibus ou para os objetos que carregavam, como se não tivessem ouvido ou visto nada.

Nesse meio tempo, o mendigo teve meia ereção, quando começou a reparar quão bonita era a menina. Tinha as pernas bem torneadas, branquinhas, e a minissaia sem meias, embora apertada, praticamente pedia uma mão quente de homem ali dentro.

O decote em vê mostrava apenas as curvas centrais dos seios...Ah, os seios...ali o mendigo se demorou mais uma vez...Revezava seu olhar entre eles e o rosto da mulher e pensava...Que seios lindos, fartos, mataria para tê-los em minhas mãos, beijá-los, sugá-los como se fossem o último gole de pinga da minha vida...

O rosto – continuou – também era belo, mas os seios...Ah, os seios...E o mendigo permaneceu nesse êxtase obsessivo e ritmado durante alguns minutos, até que seu estômago o chamou de volta à realidade.

Não era fome, pois o cachorro-quente de alguns centavos mal acabara de ser engolido.

Mais uma curva à esquerda e o soluço deu o alerta. Vômito. Precisava vomitar. Tanta bebida diluindo o suco gástrico, mais o liqüidificador do ônibus, a mistura estava fadada ao insucesso. O mendigo praticamente sentia a salsicha quase inteira dentro de seu estômago.

A moça, por sua vez, sentia o cheiro de bile a cada soluço. Pior, com a ereção em cinqüenta porcento, o mendigo ainda pensava em beijar a donzela. Sem dúvida, era um homem em seu estado primitivo, precisando satisfazer duas necessidades fisiológicas impostas pela Natureza.

A mulher, no segundo alerta, pediu licença e iniciou seu malabarismo na tentativa de passar pelo mendigo sem lhe tocar um fio de cabelo. Mas o esforço foi em vão. O mendigo, enquanto a moça estava em pé bem em frente, trouxe-a delicadamente para seu colo e iniciou o beijo, abraçando-a como uma camisa-de-força.

É claro que os poucos passageiros ficaram incomodados com a situação. Uma coisa é negar socorro a quem pede ajuda numa situação de perigo apenas em potencial, outra coisa é presenciar uma ataque desses. O próprio cobrador acordou assustado. O motorista olhava mais pelo espelho retrovisor interno que para a pista à sua frente.

Não se ouvia gritos, pois a boca do mendigo tapava a boca da menina com sua língua. Ela se debatia como podia, mas logo que uma mão escapava e acertava o rosto do mendigo, logo era dominada pelo bêbado.

A situação estava insustentável e chegou ao ápice, quando o ônibus bateu numa motocicleta que estava andando devagar na pista e, desgovernado, despencou do viaduto. O ônibus girou sobre si uma vez para a direita e caiu de lado, matando todos que estavam dentro, exceto a moça. Ela, abraçada pelo mendigo, sobreviveu. Desde o sinistro, não passa um dia sem dar esmolas, nem uma noite sem lembrar do beijo do seu herói.

quarta-feira, junho 09, 2004

Falta só um

Hoje de manhã. Chegando no escritório. Um senhor, quase careca, magro, com óculos de grau de lente escura e uma mala daquelas que se pendura transversalmente no peito (todo estagiário de direito tem), segura a porta do elevador para eu entrar.
Eu nunca confiei nessas pessoas que seguram a porta do elevador.


- Bom dia! - e abre aquele sorriso injustificável às 8:00 horas da manhã.
- Bom dia! - respondo, olhando sempre de rabo de olho, mais desconfiado do que nunca.


O botão do 6º andar já está aceso e eu acendo o do nono, esticando o braço pra permanecer bem longe daquele sujeitinho alegremente esquisito.


- É...falta só um dia... - e olha pra mim rindo.
- Ahã...- esse grunhido matinal era a manifestação mais simpática que um esquisito como aquele poderia receber de mim naquele momento.


O cara complementa:


- Para sexta-feira...falta só um dia.
- Humm...- esse outro grunhido matinal significava que eu tinha escutado a manifestação vocal dele, mas que ainda estava processando a informação no meu cérebro e ainda não tinha chegado a uma conclusão razoavelmente lógica.
Nas minhas parcas contas matinais ainda era quarta-feira, dia do futebol que não vou nunca. Pensei comigo: "devo estar confundindo, deve ser quinta, quando chegar no escritório penso nisso".


Assim que chegou no 6º andar, o esquisitão antes de sair, fechou a cara e olhou meio sem graça, meio decepcionado e corrigiu:

- Amanhã ainda é quinta...