O cheiro era mesmo monstruoso, hostil, inóspito. Vinha de dentro de uma casa abandonada, isolada por outros tantos prédios velhos da avenida. Era a única casa da rua pela qual Dominique passava todos os dias. Precisamente às 9:45 da manhã.
O local nunca cheirou bem mesmo. À noite, servia de abrigo aos mendigos, que dormiam embaixo da varanda. De manhã, Dominique ainda os via fugindo do sol, puxando os cobertores por sobre as cabeças.
Todo dia era a mesma coisa: ela colhia uma flor no jardim do prédio vizinho, enfiava no nariz e passava pela casa sem se incomodar (muito) com o mau cheiro dos mendigos. Precisamente às 9:45 da manhã.
Mas naquela manhã, algo estava diferente. Não se sabe se o tempo nublado a influenciou, mas sentiu um cheiro forte de problema no ar. O aroma suave da flor esmagada em suas narinas não bastou naquele dia para disfarçar o odor fétido dos mendigos. Alguma coisa apodrecia.
Sacou da bolsa sua água-de-cheiro e despejou um tanto no lenço vermelho que providencialmente escondia seu pescoço naquela manhã. Amarrou-o no rosto feito “cowboy” e foi investigar. As mulheres realmente são mais corajosas. Ou a curiosidade é tanta que supera com facilidade qualquer medo. As mulheres simplesmente não conseguem ficar curiosas.
À primeira vista, Dominique não reparou nada de anormal naquela casa sombria. A casa estava às moscas - claro que não estava vazia, mas cheia de moscas - com sujeira por toda parte, mendigos dormindo amontoados, garrafas vazias, papelão espalhado e um cão velho, que mal conseguiu abrir os olhos quando sentiu a presença perfumada de Dominique.
Para o espanto dela, dentro da casa havia mais de vinte mendigos, todos dormindo. Da rua e do portão da frente, via apenas três ou quatro na varanda, não imaginava todo aquele complexo residencial dentro da casa. Tinham até um fogareiro enferrujado e uma copa improvisada com caixa de frutas. Sem as frutas, claro.
Seus olhos circularam por toda a parte térrea da casa. Embaixo, além da varanda, a casa possuía uma ampla sala de estar quadrada, com uma sala de jantar, também ampla à esquerda, que dava acesso à cozinha. Num dos cantos da sala, oposto à sala de jantar, subia uma bela escada curvilínea, de piso de mármore e corrimão de metal dourado.
Esquivando-se dos mendigos que dormiam na sala de estar, Dominique afastou o lenço do nariz por alguns instantes para farejar a origem daquele cheiro horrível. Tinha alguma coisa estragada, podre ou morta. Nunca havia sentido o cheiro de gente morta, mas identificou logo que essa devia ser a hipótese correta. E o cheiro vinha da parte superior da casa.
Percebeu alguma movimentação na sala de estar e enquanto galgava com cuidado os degraus da escada, sentiu medo. A coragem estava desaparecendo junto com a curiosidade. Pensou em fugir, mas já estava no meio da escada.
Dominique, como o próprio nome sugere ou faz imaginar, era gostosinha. Daquelas de aparência frágil, mulher com cara e corpo de menina. Na verdade mais com cara de menina mesmo. No entanto, seus olhos pretos (não como jabuticabas, apenas pretos, afinal a cor preta não tem variação), pretos e investigativos, diziam tudo: era fogo na palha a menina! Do tipo baixinha invocada, sabe? Doce, mas invocada.
Acontecia às vezes de alguém distraído fazer uma brincadeira e ela, não entendendo ou não gostando, responder com uma agressão verbal que doía mais que tapa na cara. Daqueles ardidos e injustos.
Cansada de ouvir histórias tão macabras quanto insólitas, Dominique sentiu um frio na barriga, quando releu em sua mente a manchete do Notícias Populares: “Vagabundo estupra velha decrépita no metrô” e no subtítulo a continuação: “e sai com a calcinha na cabeça!”. Morria de medo de ser estuprada.
Surgiu daquela movimentação da sala de estar um mendigo se espreguiçando. No início o mendigo, coçando o saco, não percebeu a presença da invasora, mas tão logo levou as mãos aos olhos para tirar a remela que o impedia de enxergar, notou a estranha no meio da escada.
Esfregou os olhos para ter certeza da visão e, arregalando-os e piscando-os sincronizadamente, percebeu que não estava mais sonhando. Deus existia, enfim. Ao menos uma Deusa existia e estava ali, logo ali, na escada da sua casa, aguardando-o.
O mendigo, que se chamava Joselino (de Josenilda, sua mãe, filha de José e Nilda e de Severino, seu pai, filho de Severina e Raimundo), sorriu sem mostrar os poucos dentes que lhe sobraram. Armou aquele olhar artístico do Tarcísio Meira quando estava com um tumor na cabeça e caminhou lentamente na direção de Dominique. Ele não deixaria escapar aquilo que queria; precisava; desejava.
Ela, petrificada e aterrorizada, cada vez mais, grudou as costas na parede e não conseguiu se mexer. Girava apenas os olhos, percebendo que ela era o destino daquele mendigo esquisito. Pensou em correr, mas não conseguiu. Travou.
Joselino subiu os degraus necessários e segurou com seu braço esquerdo a pequena cintura de Dominique. Ela não se mexia e agora seus olhos miravam uma enorme mancha negra no teto, que ela sequer viu ou pensou o que seria. Ele, então, pôs a mão direita na cabeça de Dominique e chegou mais perto farejando seu perfume. Achou-o horrível.
Afastou novamente a cabeça e deslizou sua mão uma única vez pelos cabelos pretos e curtos dela. Dominique virou o rosto de lado e colou ainda mais na parede. Joselino alisou o rosto dela com as costas da mão e aproximou-se para beijá-la.
Desceu sua mão ainda mais, pelos ombros dela, e tentou desgrudá-la da parede. Ela resistiu e ele desistiu do beijo: o cheiro daquele perfume forte doía-lhe a cabeça por demais.
Joselino forçou-a e conseguiu por a sua mão nas costas de Dominique, que quase desmaiou. Com um movimento rápido, ele então subiu ambas mãos pelas costas delas e, num abraço que poderia até se dizer gostoso, conseguiu tirar-lhe a bolsa, que, pendurada no ombro direito, estava presa entre as costas de Dominique e a parede.
O gesto de Joselino, para Dominique, foi uma bênção e a impediu de desmaiar. Ela não seria estuprada. Pelo menos não naquela hora.
Joselino, tomou-lhe a bolsa com violência, abriu-a como pôde e despejou todo o (incrível) conteúdo no degrau superior, que estava mais à mão. Da bolsa caíram, entre muitos papéis e recibos de compras amassados, a carteira (ela tinha cinqüenta e uns trocados), a escova, a lixa, o rímel, o batom, três canetas, um absorvente interno, um par de meia-calça, uma cartela de comprimidos de aspirina, camisinhas (muitas), Cebion, moedas, balas, enfim, tudo que a Física diz não caber naquela bolsinha.
Espantado com o conteúdo, Joselino separou a carteira dos demais objetos, menores, e pegou a aspirina, respirando aliviado. A ressaca teria um fim. Engoliu a seco, um a um, uns três ou quatro comprimidos e desceu as escadas, voltando a dormir o sono dos justos.
Dominique ainda ficou uns bons segundos espantada com aquilo tudo. “Não fui estuprada, nem assaltada! Por quê?”, pensou ao recolher os demais objetos que se espalhavam dentro da bolsa como se cada um conhecesse seu lugar e soubesse instintivamente onde deveria se alojar.
Sem medo e no meio da escada, ela decidiu continuar a busca que quase lhe havia rendido uma parada cardíaca. Subiu o resto da escada com pressa e, verificando rapidamente que não havia vivalma nos demais quartos, foi direto ao quarto do casal que ficava no final do corredor. Havia três quartos na casa, obviamente enormes para os padrões atuais, e apenas um banheiro, também gigantesco, que servia a todos os quartos, inclusive o de casal.
Dentro do quarto de casal também não encontrou nenhuma alma viva, apenas um corpo. Uma mulher, quase sem roupa, exalava aquele cheiro, agora inconfundível, de morte. Não havia sangue, nem sinais de violência e uma carta ainda presa à mão da morta confirmava o suicídio.
Assustada, Dominique correu o caminho de volta à rua e chamou a polícia. Dez minutos mais tarde, ela apontou o interior da casa para os policiais. Os policiais jogaram o corpo no carro e partiram com o alarde peculiar. Ela esqueceu de entregar a carta fúnebre à polícia.
Já no escritório, atônita em frente ao computador, ela leu a carta, manchada de lágrimas:
“Querido Darcy,
Não suporto mais essa vida. Enquanto você fica na banca de jornais, eu fico em casa pensando nele. Quando estou em seu lugar, na banca, você dorme em casa, sem imaginar o que passa pela minha cabeça.
Resolvi tomar essa atitude covarde porque não agüento mais e não queria fazer você sofrer mais do que deve estar sofrendo agora. Seu desgosto seria insuportável pra mim. Você não merece sofrer!
Não te amo. Acho que nunca te amei. E resolvi dar um fim nessa história e no meu sofrimento por ter te traído com ele. Você jamais vai entender como pude me apaixonar por outro homem, nem eu mesma sei como tudo aconteceu. O fato é que eu estava apaixonada por outro homem. Não vou dizer quem é, mas posso te garantir que foi amor de verdade.
Ele não me quer mais e eu não quero mais viver. Fui abandonada.
Adeus!
Giovana
Ps.: Por favor, não tente descobrir qual desses mendigos era o meu amante.”
terça-feira, junho 15, 2004
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