sábado, junho 12, 2004

A Dama e o Vagabundo

Fazia muito frio naquela noite. Garoava e ventava forte. A lua minguante se escondia nas nuvens carregadas e parecia riscada pela água forte da chuva. Embaixo do cobertor sujo e molhado, o mendigo fedia e imaginava porque enfiara a faca na barriga da companheira. Chamavam-no Vagabundo.

Seus pés encardidos como uma crosta de pneu, de unhas grandes, pisavam raivosamente sobre sua imagem refletida nas poças escuras, negando sua própria existência. Inconscientemente queria ser outra pessoa, menos por sua condição de mendigo, mais pelo crime incompreensível que acabara de cometer.

A mendicância era sua profissão há anos, desde que bebeu num bar a casa que seus pais lhe deixaram. Onde e como estariam eles agora? Com certeza melhor que ele, que nunca quis estudar, muito menos trabalhar. Quando menino, vivia surrando os colegas de escola e azucrinando os professores. Foi expulso do colégio e fugiu de casa quando explodiu sem querer o vaso sanitário em que um colega defecava. Enfim, a alcunha lhe fazia jus. Na pior das hipóteses, estivessem pobres ou mortos, ao menos seus pais não haviam matado ninguém.

O coração dispara no ritmo da sirene que se aproxima, não há mais tempo para pensar! A fuga diminui o frio. As ruas, as lojas, os postes, são todos borrões coloridos na curva dos olhos. Corre sem rumo, pra qualquer lugar, desde que não ouça mais o som ensurdecedor de seus próprios atos. Entre as imagens destorcidas pela velocidade de suas patas, não consegue interromper o filme que protagonizou há pouco. A única cena desse filme se repete indefinidamente; logo termina, começa de novo, e com ela, a dor, a angústia, o arrependimento.

Cruelmente revive a cena em sua mente...Longe dali, em outra praça - que poderia ser a mesma de tão suja - em meio aos entulhos, vê a esguia silhueta da companheira na sombra do lixo. Ao lado dela, outro mendigo. Súbito, pára: começa a suar instintivamente. Pensa um pouco, negando o óbvio e conclui ter visto sua própria sombra; mas não, as suspeitas que não existiam antes se confirmaram agora: era sua companheira com o amante!

Nesse momento, a fúria, que só se sabe que existe nessas horas, domina-o por completo. O sangue de suas veias já saltadas, especialmente na testa e têmporas, quase evapora feito o suor frio que lhe escapa pelos poros encardidos. Seus olhos, vidrados e irreconhecíveis, vêem a raiva explosiva se esvair somente no momento em que enfia a faca nos escombros habitados. Alívio.

A fúria contida ao se dissolver o deixa tonto, confuso por um instante, mas a chuva - benção de Deus - condensa seu sangue e o acalma. A solidão então se aproxima e ao seu corpo molhado e suado se unem as lágrimas: frias, mas verdadeiras, arrependidas, assustadas.

Tal como havia brotado repentinamente a fúria, a habilidade e o poder de concentração de um assassino profissional baixam no mendigo como implantes instantâneos, de uma hora para outra, sem origem conhecida, de uma frieza inconcebível até mesmo para ele, um mendigo acostumado com as calçadas violentas da cidade. O Vagabundo limpa a faca manchada de vida e morte no cobertor, que já quase caía dos ombros, e a arremessa no bueiro. A enxurrada que surra o bueiro, leva a arma, mas não a imagem do crime, nem seu sentimento de culpa.

Conhecera a Dama na fila do albergue, também numa noite fria, porém seca do inverno passado, quando ambos dividiram a colher de plástico e o prato raso, sujo de um espaguete pouco mais que congelado. Encontraram seus lábios num fio de macarrão e dormiram juntos pela primeira vez naquela noite.

É difícil imaginar como o Vagabundo confiou de imediato na mendiga. Nem bem haviam se conhecido e já se viram abraçados como namorados. Também naquela mesma noite, em que beberam juntos (ela bem mais), percebeu que a Dama era alcoólatra. Daí vinha seu apelido, Dama da Cachaça, mas o Vagabundo preferia chamá-la somente de Dama, era mais romântico.

O amor era eterno, a felicidade existia, passaram a fazer tudo juntos. Enquanto ele fingia ser paraplégico, ela furtava a carteira dos desavisados caridosos. Às vezes engrossavam a população que pede esmolas nos faróis; outras, simplesmente assaltavam os motoristas frágeis e distraídos. Tudo depois era dividido em comunhão total de bens.

Certa vez, quando a féria foi excelente, divertiram-se desprezando esmolas. “Obrigado, minha senhora, não aceito moedas” ou, quando ofereciam comida, “não, obrigada, já jantei” ou “obrigada, mas não como carne”. Ver o espanto das pessoas que se dispunham a ajudar era a melhor coisa. Pouco importava se no dia seguinte sentiriam fome, a alma também precisa se alimentar e a diversão era o melhor jantar.

Foram muitas as noites de amor. A fantasia era fazer amor entre quadro paredes ou “do lado de dentro”, como eles costumavam dizer. O fato é que se encaixavam com perfeição. Nem ele, nem ela haviam amado tão intensamente antes. Claro que sexo sempre é bom, mas com ela era diferente, sentia um prazer maior, algo indescritível.

Quando o amor é verdadeiro, o sexo é sublime. O gozo é limpo e perfeito. Tudo à volta parece desfocado, até mesmo os transeuntes que olham de rabo de olho, fuzilando com nojo e desprezo seus corpos em movimentos induvidosos sob o cobertor. Ninguém existe. Nem os próprios amantes, que durante aquele ato convulsivo estão em outro lugar, noutra dimensão.

Depois do amor, os restos de comida são banquetes, a pinga desliza suave pela garganta feito champanhe e as bitucas de cigarro exalam perfumes cubanos. Os corpos abraçados formam um só, tal como esses que o Vagabundo observava incrédulo na sombra do lixo.

Nessa hora, seus olhos cerram vendo a companheira abraçada a outro mendigo e a cena do crime entra em cartaz novamente.

Parado, ele vê o mendigo-amante se afastando dela aos beijos, como se conhecessem há anos. “Como é possível?”, ele pensa, “nos amamos tanto. Ela me chamava de amor?! De amor!!”.

O amor nada mais é que uma bolha de sabão. Surge imprevisível, de forma simples, sempre brilhante, reluzente. O amor é sutil e delicado, colorido e perfeito, embriaga por hipnose. Tudo que se vê através dele é arco-íris com a certeza do pote de ouro no final. É leve: flutua ao sabor da brisa; pode-se até pousá-lo nas costas da mão, mas se desfaz ainda com mais facilidade do que é formado. Desaparece, vira água e sabão, um sentimento disforme, confuso, repleto de ingredientes de tempo e sentimentos, que de tão complexo, misturado, fundido se torna impossível formá-lo novamente com aqueles mesmos componentes. Cada bolha é única.

Vendo o pesadelo, ele corre em sua direção, puxa seus cabelos e golpeia com ódio a barriga da mendiga. Diversas vezes. Na seqüência, beija sua boca, apavorado, calando o grito agudo que já ia saindo. Na demência do crime, tenta, inutilmente, estancar com as mãos o sangue espesso que jorra, rosa, misturado na água suja da chuva.

Desesperado, carrega a Dama em seus braços feito herói, buscando, sem sucesso, socorro. A chuva e a noite exprimem sua tristeza e terror enegrecendo a escuridão assustadora e umedecendo suas lágrimas secas. Ninguém nas ruas, nenhuma alma viva. Nenhuma mesmo, nem a dele, muito menos a dela.

Chama por Deus; pelos mendigos, que, acostumados, dormem sem se importar com ele ou com a chuva.

Conformado com a morte da companheira, deita-a com delicadeza entre os escombros do lixo, na esperança inútil de que seu corpo, cada vez mais frio e leve, fique confortável e se misture sem deixar vestígios.

No dia seguinte, fingindo tudo aquilo não ter ocorrido, embora ainda sentisse uma dor de ausência no peito, caminha desordenadamente à procura da Dama e a encontra num local diferente daquele no qual a havia deixado ontem. Cuidadosamente disposta em posição fetal pela força da chuva, estava morta.

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