sexta-feira, junho 11, 2004

Divino Encontro

O mendigo revira o lixo, sem pressa, como quem passa com o prato num aparadouro de restaurante por quilo. Sua única responsabilidade na vida é manter-se vivo, por isso cuida das refeições com muito cuidado. O lixo parece atraente. Olha um resto aqui, dispensa um osso ali, enfim seleciona de acordo com o seu apetite e paladar. Busca a sobremesa, que irá desfrutar depois: o toque final de seu jantar ao ar livre, sob a luz da lua crescente. Quase bucólico.

O cheiro podre da brisa da noite não incomoda mais. Talvez porque seja seu próprio perfume rodeando seus movimentos ou porque já esteja acostumado mesmo. Isto explicaria também as moscas, sempre aos montes, mas fiéis e companheiras, que junto do cão sarnento são suas fiéis companheiras. Se não tivessem tão pouco tempo de vida, daria nomes e retribuiria a atenção.

Ao chegar no último saco de lixo, meio desapontado por não ter encontrado um delicioso resto de maçã mordida, o mendigo esbarra na porta dos fundos, que, convidativa, abre-se. Não sabia exatamente o que era, imaginava um restaurante ou um pequeno hotel, porque muita gente chegava pela frente e os cozinheiros eram vários, dava para ver a movimentação dentro da cozinha. Imaginou ser um desses dois tipos de estabelecimento também pelo excesso de desperdício da comida - tinha em seu prato um frango, ainda quente, apenas sem asas. Ainda pensou: "qual a servidão das asas num frango assado?".

A luz inebriante que vinha da porta – e que aumentava conforme ela ia se abrindo – hipnotizou-o de uma tal maneira que o fez esquecer a regra número um da mendicância: ninguém o quer por perto! Com os dois pés já no corredor, velozmente voaram imagens em sua mente. Provavelmente efeitos colaterais da luz hipnótica que vinha da cozinha e, contrariando todas as leis da Física, fazia curva no corredor como um veio d’água a procura do melhor curso.

Ouvia – agora em estéreo – os sons monótonos que escutara lá fora. Lá da rua, os ruídos eram roucos, regados a um ranger de pratos e talheres, acompanhados surdamente de música chata. Agora não, do lado de dentro, no corredor, ouvia as vozes aveludadas e apetitosas, a música tenra - mas ainda chata - algo sublime, apenas quebrado em alguns instantes pelas pedras de gelo girando nos copos.

Ainda estático, sentado no meio do corredor, o mendigo degustava com incrível prazer e de olhos fechados o prato feito do lado de fora. Os aromas diferentes em que estava mergulhado alteravam o sabor do frango aseta. Deixavam-no tão gostoso que o mendigo decretou: "Isto é obra de Deus!".

De repente, uma porta se abriu. "Pronto", pensou, "sentiram meu cheiro!". Mas não, o smoking bêbado passou por ele, chegou a cumprimentá-lo sem olhar nos olhos e desviou cambaleante para a esquerda, buscando a cozinha. Dois minutos depois, assustando mais uma vez o mendigo, saiu de lá com uma garrafa de uísque numa das mãos e três copos com gelo equilibrados, na outra. Segurava-os pelos dedos, numa proeza digna de robôs de última geração.

Mas o mendigo não resistiu e exclamou para si: "Meu Deus do céu, isso não vai dar certo!". E realmente não deu. Um dos copos escorregou e ia caindo, mas foi agarrado pelo mendigo, perto do chão.

A situação pedia um agradecimento e o bêbado, naquela altura, mais versado em encher copos do que em palavras, aproveitou a posição em que o mendigo segurava o copo e serviu uma dose robusta de uísque, ordenando:
- Venha!

Por um instante ou dois, o mendigo hesitou, prevendo a frustração de ser rejeitado no ambiente em que estava para adentrar, mas aí seu inconsciente autorizou: "Que mal há se fui convidado?".

De fato, o pior que podia lhe ocorrer seria voltar a revirar o lixo do lado de fora, ao que já estava habituado, ou então, uma surra; esta última alternativa não lhe pareceu provável. Mesmo assim, caiu-lhe uma lágrima de suor frio – efeito da lembrança das surras passadas.

A cena que se passou a seguir não poderia ter sido mais lúdica. O bêbado – que o mendigo soube depois se tratar do dono da festa – envolvendo-o num abraço (com o braço dos copos), ia de roda em roda, alegremente, apresentando-o aos convidados como seu irmão. Por óbvio que ninguém contestou o parentesco inexistente, pois, ou estavam bêbados demais, ou simplesmente não se interessavam pela vida do bêbado. A maioria somente estava na festa para aproveitar a boca-livre.

É curioso como são as coisas. Quanto mais rico o sujeito se torna, menos ele quer gastar e mais gosta de boca-livre. Os pobres, ao contrário, são orgulhosos e dificilmente aceitam favores ou coisas de graça, preferem pagar pelo que consomem. Mas o mendigo não era pobre, era miserável, ou melhor, mendigo e, nessa condição, o orgulho é um sentimento impensável ou, pelo menos, relativo e submisso à necessidade.

Depois de ambientado na festa, o mendigo se libertou do bêbado e começou a se revezar entre comer, beber e guardar nos bolsos. Era esperto o suficiente para não comer com muita ansiedade, procurava não chamar muita atenção. Disfarçando, colocava um guardanapo na frente da boca, bebia um pouco, mostrava seus poucos e sujos dentes para a platéia, que, assim, desviava o olhar. Ninguém gosta de fazer contato visual com mendigo. A chance dele lhe pedir alguma coisa é enorme.

Lá pelas tantas, com o bucho forrado, o mendigo reparou que estava meio alcoolizado. Quando bebe pinga, as talagadas que dá deixam-no bêbado de uma só vez, a ponto de quase desmaiar e a partir de então não se lembra de mais nada. Mas na festa, não foi assim. Bebeu paulatinamente, entre garfadas e foi ficando embriagado aos poucos.

Aproximou-se de um senhor de idade avançada, com ar sereno, de barba grisalha, bem aparada e olhos profundos – sempre dizemos olhos profundos quando são azuis ou delineados por olheiras – este último o caso desse senhor.

- O senhor sabe me dizer onde fica o banheiro dos homens? – iniciou o mendigo.

Sem responder à pergunta, o velho replicou:

- É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus!

O mendigo, repassou mentalmente o diálogo e, apesar de bêbado, julgou que a resposta não tinha conexão com a pergunta. Tentou um ajuste:

- Meu senhor, não sou rico. E eu só quero entrar no banheiro... – Esperou a reação.

O senhor desenhou um sorriso e insistiu:

- A penitência é o caminho da salvação, meu filho!

Nesse momento, o mendigo teve certeza de que não estava se fazendo entender. Irritou-se:

- Você sabe ou não sabe o caminho do banheiro?!

- Siga os passos do meu filho e serás salvo!

O mendigo olhou para os lados e viu um moço andando confiante numa linha reta. Supôs ser o filho do senhor que se encaminhava para o banheiro e o seguiu, agradecendo meio contrariado.

Defecou como um rei. Demorou-se no trono espaçoso e confortável, sorrindo feito criança, num êxtase inexplicável, sem se importar com o faxineiro que cuidava do banheiro. Divagou bastante e – como costuma acontecer nos banheiros – e matutou sobre as frases desconexas daquele senhor "...Reino dos Céus...Caminho da Salvação...Siga os passos do meu filho...". Na sua confusão bêbada, concluiu com espantosa clareza que aquele senhor só poderia ser uma pessoa nesse mundo!

Saiu do banheiro mais aliviado, apressou o passo e, identificando o senhor no meio da multidão, foi até sua presença e perguntou:

- O senhor é Deus?!

Aquele homem sereno, grisalho, arqueou as sobrancelhas e quis ouvir a pergunta mais uma vez:

- Perdão?

O mendigo, zonzo pela bebida, não compreendeu o tom de voz. Imediatamente passou a socar o homem até fazê-lo desmaiar no chão, na frente de todos. Olhou com altivez e desprezo para Deus caído no chão e gritou:

- Não perdôo!

Sob os olhares assustados da festa em silêncio, saiu calmamente com a leveza do dever cumprido.

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