segunda-feira, junho 14, 2004

Nu

Um dia resolveu tirar as roupas. Tudo. Ficou completamente nu. Sujas, as roupas já o estavam incomodando. Não tinha onde lavá-las, já que a água da fonte da praça era mais suja que as próprias roupas. Todos os mendigos, inclusive ele, mijavam e defecavam naquela fonte. Era a latrina mais próxima, nunca houve banheiro público. Lavar nas torneiras das casas comerciais depois do expediente dava muito trabalho, então ficar sujo era a melhor alternativa.

Claro que tirar as roupas não foi uma falta de opção ou de uma escolha pela higiene, mas uma decisão tomada junto com a pinga e o crack, a felicidade plena por cinco ou dez minutos. Eufórico, o mendigo concluiu sem muito esforço que andar vestido era uma convenção da sociedade e, sendo ele um excluído da sociedade, não tinha obrigação nenhuma de obedecer essas regras de comportamento.

Incrivelmente, ainda pensou: “Ora, se a sociedade tem a obrigação de dar comida, um teto, um emprego e saúde; e não faz nada disso, por que tenho que andar vestido?”. Ainda arrumou outro argumento: “Depois, eu fumo crack todo dia, o que é extremamente proibido; todo mundo vê e ninguém se importa. Por que vão se importar se eu andar sem roupa por aí, isso não é nem crime!”.

Pelado, o mendigo entrou na padaria da esquina e pediu para usar o banheiro. O dono da padaria, mais assustado do que os seus fregueses, pôs a caneta atrás da orelha e correu para cobrir o mendigo.

- Estás maluco, ó rapaz! Onde estão tuas roupas?!
- Joguei fora...Posso usar o aposento sanitário?
- O que estás a me falar? Cobre-te com este avental e some daqui!

O mendigo vestiu o avental e insistiu:

- Será que agora o senhor me permite usar o banheiro?
- Some, já disse, o banheiro é para uso exclusivo dos fregueses.
- Então se eu comprar um copo de pinga com essa moeda posso usar o seu banheiro?

Antes mesmo de obter a resposta negativa, dois garçons conterrâneos do mendigo o expulsaram da padaria. Ficou ali, jogado na calçada, rindo da situação. Levantou-se ainda com um sorriso no rosto, tirou o avental calmamente e foi até a fonte da praça.

Duas velhinhas passavam pela praça enquanto o mendigo fingia estar apenas se banhando na fonte. Quando perceberam a nudez do mendigo pararam para ver. A velhinha mais sorridente riu e comentou:

- Que homem bonito, não? Quem me dera o falecido tivesse um corpo desses, hein Carmem?
- Que pouca vergonha! Esse pedinte devia ser preso!
- Mas por quê? Ele não está fazendo nada demais. Está só se banhando.
- Vou chamar a polícia, isso sim! Agora a gente é obrigada a ficar vendo essa sem-vergonhice? Bem aqui no meio da praça?
- Calma, Carmem! Vamos embora, você não precisa ficar olhando. Vem, deixa o menino em paz.
- Vamos, mas se eu encontrar um policial no caminho vou avisar sim!

Passaram as duas velhinhas e o efeito do crack. No seu cantinho de rua, o mendigo tomou mais um talagada de pinga para matar a fome e talvez a depressão, que empurrava as lágrimas para fora. Percebeu que estava sem dinheiro e, angustiado porque não poderia bancar a próxima fissura de crack, não segurou o choro. Temia mais a crise de abstinência que a própria morte.

Sentados na frente de um prédio abandonado do centro, dois mendigos, colegas dele, fumavam crack em plena luz do dia, sem se importar com os pedestres apressados, que somente se revoltavam pelo transtorno de mudar de calçada para atravessar aquele trecho sem passar na frente dos viciados.

O mendigo nu se aproximou e pediu um pouco.

- Sai fora cara! Esse bagulho é nosso, custou um toca-cd inteiro, com frente e tudo! Sai pra lá!
- Só uma fumadinha rápida, vai?!
- Não!

Definitivamente não é uma classe unida. Solidariedade é ficção, mas a paciência é uma virtude, quase uma necessidade de sobrevivência. Dois minutos depois, os mendigos fumantes já estavam sorrindo, felizes da vida, e ofereceram a droga para o mendigo nu. O diálogo ríspido de poucos minutos atrás deu lugar a uma conversa tão amistosa quanto desconexa. Coisa de amigos. Viciados, mendigos, mas amigos.

Feliz novamente, o mendigo nu saiu de lá antes que seus colegas voltassem à realidade e lhe surrassem por ter fumado do crack deles.

Dobrou a esquina extasiado, sorrindo para o nada, quando sentiu uma mão forte segurando seu braço esquerdo. O policial meteu-lhe as algemas e arrastou-o pelos cabelos até a viatura. O mendigo não reagiu. Ainda tomou um soco na cabeça para auxiliá-lo a entrar no camburão, mas não reagiu. A felicidade ainda era plena.

Na delegacia, jogaram-lhe um cobertor por cima dos ombros e puseram-no na frente do delegado de plantão.

- E então, pinéu, por que você está sem roupas?
- Gosto.
- Gosta de mostrar a bundinha por aí, é?
- Gosto.
- Bota uma roupa nesse doido e joga ele na 3-B!

O coitado do carcereiro...É inevitável acrescentar o adjetivo “coitado” porque os carcereiros, coitados, passam quase tanto tempo na cadeia quanto os presos, talvez até mais, já que os presos cedo ou tarde são soltos ou fogem. Pior, os carcereiros comem da mesma comida azeda porque não podem pagar a sua própria; correm altíssimo risco de vida todos os dias e ainda são obrigados a trabalhar, os presos não...Pois então, o coitado do carcereiro obedeceu o delegado, vestindo o mendigo e jogando-o na cela 3-B.

Tão logo se viu na cela, o mendigo tirou calmamente as roupas e as colocou num canto. Ainda estava feliz. O carcereiro, com mais medo que o mendigo, foi avisar o delegado.

- Doutor, o mendigo ficou pelado de novo...
- O quê?! Eu não mandei você vestir o desgraçado?!
- Eu botei umas roupas nele, mas quando entrou na cela, tirou tudo...Que que eu posso fazer?
- Deixa comigo!

O delegado então pegou o cassetete que fica embaixo da sua mesa e partiu para a cela 3-B, rachando o chão e bufando feito touro bravo. Mandou abrir a cela e entrou:

- Que que cê tá pensando?! Que aqui é casa da mãe joana?...Bota logo essa roupa senão vai apanhar...
- Eu já apanhei.
- Vai apanhar mais.
- Tá bom.

O delegado achou que esse “tá bom” significava “tá bom, vou colocar a roupa”, mas o “tá bom” do mendigo era de “tá bom, pode bater”. Por uns dez ou vinte segundos ficou assim: o delegado olhava para o mendigo, olhava para as roupas, olhava para o carcereiro, olhava para os outros presos da cela e voltava a olhar para o mendigo. Não estava acreditando.

- Cê não vai por a roupa?!
- Não.
- Como não? Quer apanhar?
- Não.
- Então bota logo essa roupa, senão eu...
- Não.

O delegado estava sem saída, ou espancava o mendigo e corria o risco de alguém o denunciar para a Corregedoria ou ficava desmoralizado na frente dos carcereiros, policiais e presos que assistiam – segurando o riso – àquela cena insólita. Bateu, bateu, bateu muito, até desmaiar o mendigo. Botou a roupa no corpo desmaiado do mendigo e o algemou.

- Aqui quem manda sou eu - bradou o delegado, estufando o peito feito galo novo que acaba de reproduzir.

O carcereiro, desconfiado, foi tentar acordar o mendigo. Nada. Estava morto. O delegado, que ainda estava na cela, percebendo o acontecido, baixou a cabeça por um instante e suspirou pensativo.

Retomando o ar de senhor da situação, mandou energicamente o carcereiro tirar as algemas do mendigo e saiu da cela para chamar o rabecão. Ia alegar uma briga entre presos e ponto final.

Quando voltou para a cela, o delegado se assustou.

- Que é isso? Por que o mendigo está pelado de novo?
- As roupas são minhas, doutor - disse o carcereiro, disfarçando o sorriso.

O mendigo foi enterrado nu.

Um comentário:

Anônimo disse...

A nudez,especialmente a masculina,dá margens a muitas histórias interessantes.Esta é uma delas...