segunda-feira, dezembro 20, 2004

Cats and Dogs

Chovia canivetes. O motorista do táxi, com um cabelo liso, oleoso e grudado no coro cabeludo com um gel brilhante, portava um óculos fundo de garrafa e sorria permanentemente. Devia ter uns 38 anos. No máximo.
- Para onde vamos, Senhor?
- Para o aeroporto, por favor.
Engatou a primeira e desde logo percebi que a corrida seria uma aventura e tanto, pois os pneus patinaram alguns segundos antes de sair.
O carro que vinha atrás, reduziu e permitiu a entrada do quatro-olhos.
- Que chuva, não? - arrisquei.
- Pois é... - respondeu o motorista com aquele sorrisinho - vai viajar?
Eu até poderia trabalhar no aeroporto, mas normalmente esse tipo de pergunta nada mais é do que uma introdução para alguma história.
- Vou...(dei uma pausa)...de avião - e ria por dentro.
- Pois é...(ele deu uma pausa)...uma vez fui levar um sujeito como o senhor...assim de terno e gravata...o senhor é adEvogado? (pronunciar a palavra sem o "e", como se deve, é quase um crime).
- Sou.
- Pois então, fui levar esse doutor no aeroporto e estava caindo uma chuva dessas. Acho que não estava tão forte, não.
- Ahã...
- E o senhor acredita que o trânsito ficou tão ruim, mas tão ruim que o tal doutro perdeu o vôo?
- Ah, mas não se preocupe. Estou indo com uma boa folga. O vôo só sai daqui a duas horas e já estamos quase chegando...
- Eu sei, mas é justamente isso.
- Como assim?
- Aquele doutor perdeu o vôo e o senhor acredita que o avião em que ele ia viajar caiu por conta da chuva?...(mais uma pausa)...Chegamos.
Entreguei o dinheiro e nem esperei o troco, mas o sujeitinho se esgueirou pela janela do passageiro e gritou:
- Boa viagem!

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