quinta-feira, dezembro 21, 2006

Jasmim

Seu amor tece luz nos meus olhos
amortece e reduz meus medos
Me adocica as palavras
Essas larvas que às vezes me fogem da boca

Seu amor se enrosca no meu cabelo
Novelo que desenrola e desce pelas costas
Ostras com limão molhadas de gelo
Relógio que uso no pulso para ver as horas
(que sempre me faltam)

Tenho pressa do seu amor aqui em casa
Esse acasalamento na sala
Na copa, lá no banheiro da empregada
A cama só de vez em quando fica suada

Seu amor fica lindo no xaxim
Poço de petróleo no meu jardim
Esse jasmim de perder a fala
Essa química que me cala

(0612001023)

segunda-feira, novembro 06, 2006

Demoradamente

nas ruas sofridas do centro
te olhei demoradamente
acompanhei teus movimentos
andavas firme, com charme
e em alguns momentos paravas
eu seguia fingindo importar-me
com o cão ladrando aos ventos
não me vias, mas rebolavas
sabias me lá, cheiravas meu pensamento
outros machos também te devoraram
e eu seguia fugindo do meu ciúme
de repente, tu páras e viras pra trás
as orelhas quase empinam
e notam minha presença
o preto do cabelo mostra desprendimento
e os bicos dos seios me chamam pra dentro
teus olhos fixos esperam os meus
e o encontro se resume a um dedo
que ao invés de prosa me mete medo
denuncia meu erro
pela última vez te olhei demoradamente
e mesmo de costas
senti teu sorriso único
e quase ouvi você dizendo:
“segues-me nas direções opostas
e caminhando, feito um tísico,
assim, demoradamente,
jamais terás meu segredo”
mas as suas descidas do ventre
olhei demoradamente
a companheira dos maus momentos
cego, segui a sombra sem sossego
seu descanso, passo a passo,
desejando o beijo do carrasco
em cima do cadafalso


(310120000213)

sábado, outubro 21, 2006

dor fantasma

as noites que passo em claro
claro que não gosto
fico acordado
pensando em você
sonhando com o que seria
se eu soubesse seu gosto
teria tudo
teu rosto claro
teu cabelo escuro
a pele leite
eleita a melhor do futuro
a dor fantasma do passado
ainda dói no membro amputado
(0607030208)

terça-feira, outubro 17, 2006

Insensatez

Quero ver
Você ouvir
Tudo que toco e sinto
O gosto dos meus beijos
Solfejos, sustenidos
Soltando os meus sentidos
De vez

Quero ter
O seu sorriso
Abrindo-me aos poucos
Os seus ouvidos moucos
Cansados de tanta
Insensatez

quarta-feira, setembro 13, 2006

Lápide

Não sou uma pedra
Sou uma pétala que erra
A pedra dura
A eternidade
A pétala madura
Cai com a idade
A vida passa efêmera
Acaba depois da primavera
A pedra fica, não se abala
Anotamos a história
Para dar algum sentido
Fazemos filhos e netos
Trabalhamos e damos lucro
Mas a verdade é que
A pedra existe e não sou eu
Serei apenas um dia
Um nome na pedra

(1309060213)

sábado, agosto 05, 2006

Memória do Povo Brasileiro

Quem disse que o povo brasileiro não tem memória?
Outro dia (em 2006), João, um taxista daqui do bairro, ao me levar para o trabalho no dia de rodízio, começou a contar uma história daquelas verídicas, mas difíceis de engolir.
Certa vez, ele apanhou um senhor no aeroporto e, olhando insistentemente pelo retrovisor do carro, começou a pensar que talvez conhecesse o sujeito.
Puxa daqui, puxa dali e a imagens extremamente desagradáveis surgiram em sua mente.
Será? Seria ele? Não, não pode ser. Ele não teria coragem de vir ao Brasil, assim, sem mais nem menos...
Continuou olhando, intermitentemente.
O sujeito percebeu e ficou incomodado. Resolveu perguntar.
- Algum problema, signore?
Ao ouvir o sotaque, João foi obrigado a perguntar:
- O senhor é o Paolo Rossi? Que acabou com o Brasil na Copa de 1982?
- Si.
Freou o carro imediatamente e ordenou:
- Desça imediatamente do meu carro!
Depois dizem que brasileiro não tem memória.