De bruços, nua, o macio colchão curvava-se um pouco com o peso do seu corpo perfeito. Sua pele era água e azeite com os lençóis, que desenhando curvas sensuais, encolhiam-se nas margens da cama. Com os braços cruzados sob a cabeça, com seus cabelos castanhos espalhados como se ventasse no quarto, ela dormia esfarelada o sono de uma noite de amor.
Eu, de frente para a cama assistindo àquela cena, extasiado, me deixei pendurar na cadeira de vime, misturado às roupas amassadas de ontem à noite. Pensava no prazer que tive em beijar suas coxas lisas e brancas, na felicidade que quase se podia ver no ar, quase sólida da noite anterior. Ela transbordava alegria, mesmo dormindo.
Não quis acordá-la. Desfrutava sozinho o sentimento de paz daqueles metros quadrados de realidade impensável. A luz das velas aromáticas dava uma cor mística que combinava com ambiente de gozo profundo.
Há três semanas, meu desespero sentimental parecia ser meu destino inexorável. Sujo, fedendo, perambulava pelas ruas desgraçando os demais seres que aparentavam ser felizes, normais. Naquela época - como se tudo aquilo tivesse ocorrido na encarnação passada - morrer parecia uma solução boa demais para um errante marcado para sofrer desde a primeira luz.
Desviei meu olhar para o teto, onde passava o filme do dia em que a conheci. Eu chorava na fila da sopa. A noite ainda estava começando - o tempo é verdadeiramente relativo para quem não tem nada a perder – mas já se mostrava linda, agradável, para meu desespero.
Só conseguia praguejar silenciosamente contra Deus ou seja lá quem tinha desenhado aquela vida. Gritava revoltado com os olhos contra todos, tachando de injusto o desígnio da minha vida. Implorava a caridade da Morte, que me levasse antes do dia seguinte, certo de que o mundo de lá era melhor ou menos infeliz que o daqui.
Enquanto sonhava com uma existência menos triste, chegou minha vez e aquela voz tenra me tocou profundamente. Naquela hora descobri que Deus existia. Só mesmo algo bom e carinhoso poderia ter colocado em meus ouvidos aquele som delicioso, que se desmanchava se infiltrando por dentro da carne, da alma.
Uma concha de sopa vagueava no ar, aguardando pacientemente a aproximação do meu prato vazio, mas não estava paralisado e tudo que senti foi um arrepio provocado pelo seu olhar inesperadamente carinhoso que me abalroou de frente, quase me derrubando.
Tímido e desconfiado, levantei a cabeça para ver qual anjo me fitava com tanta força, tanto amor. Seu corpo ereto, esguio, magro, sorriu e fez um comentário sutil, líquido, que jamais poderei repetir. Suas palavras me abençoaram de tal forma que não desmaiei porque meus movimentos estavam bloqueados, minha mente, entorpecida. Fiquei tonto e surdo.
Estático, não consegui avançar o prato. Ela, num movimento gracioso e gentil, pegou o prato e com a outra mão me serviu delicadamente. Um dedo dela – varinha de condão - tocou casualmente minha mão preta de sujeira e me senti limpo, por dentro e por fora, como se tivesse tocado minha alma. Não sorri por falta de prática, mas a felicidade já me dominava, sem que eu soubesse que se tratava desse sentimento ancestral.
Suava muito, apesar do frio, e ela percebeu. Com a sopa esquentando o prato, que queimava minhas mãos, flutuei cabisbaixo até a mesa, sem nunca deixar de olhar para a sombra dela, que desenhava no chão um corpo sinuoso, perfeito. Não conseguia distinguir o sabor da sopa, nem mesmo hoje sei se era sopa aquele líquido que sorvia despreocupado, sem olhar. Ela se ria quando me via flertando sem palavras.
Quando terminou de servir a todos, veio em minha direção, caminhando lentamente, mas firme, decidida. Como um trator, arou a multidão para me encontrar do outro lado. Tremendo, desviei o olhar e mergulhei minha atenção fixamente no fundo do prato, esticando as orelhas para tentar pressentir o momento da sua chegada.
Não pensava em mais nada, somente no que podia acontecer, naquilo que devia dizer, como agir, como evitar a tremedeira e a gagueira, que já se manifestavam desordenadamente em minhas previsões. Eu tinha que me mostrar inteligente, centrado, com perspectivas na vida, com vontade de progredir, mas nunca tive esse hábito. Não a deixaria descobrir que há poucos momentos eu desejava a morte.
Senti no rosto a mão aveludada, cheirosa, repleta de amor, que tentava dominar minha pele áspera, revezando-se entre a palma e as costas, num ritmo suave, hipnótico. Ela ficou calada. Por alguns minutos ficou apenas acariciando minha face e eu, na timidez duramente construída por anos de rejeição, permaneci concentrado na sopa, mas disfarçadamente feliz.
Num movimento harmônico, mas ágil, sua mão segurou meu rosto, como quem procura a data de validade de um produto no supermercado. Checou minhas feições, olhou nos meus olhos, atrás das orelhas, sentiu meus cabelos e disse:
- Como você é bonito!
Logo pensei, devo ser um espelho. Não era possível que alguém me achasse bonito, mas ela insistiu:
- Com água e sabão esse rosto vai ficar muito bonito!
O tempo verbal que ela usou me fez arrepiar de novo. Futuro do presente. Aquilo significava para mim, ainda que não fosse se concretizar, a felicidade plena, a esperança de que algum dia seria feliz. Aquilo era a própria vida! Ser feliz era aquilo: ter esperança de que algo bom fosse acontecer. Fui apresentado à felicidade.
Ela se mexeu na cama e baixei meus olhos do teto, interrompendo o filme. Ela ainda não tinha acordado e eu não quis acordá-la ainda, mas não resisti e cheguei mais perto. Passei meu rosto suavemente por suas costas claras e deitei meu corpo nu sobre o dela, sem intenção sexual, apenas com carinho e a força do meu peso. Percebi que a havia acordado quando, mesmo sem abrir os olhos, ela mostrou um sorriso de contentamento.
Com as minhas mãos, afaguei seus cabelos num cafuné gostoso, leve, cuidadoso. Todos meus movimentos eram previamente estudados. Não podia correr o risco de perdê-la de modo algum. Cada carinho começava com cuidado, com medo de não agradar, e era intensificado ou interrompido de acordo com o resultado provocado. O cafuné era seguro.
Depois de alguns minutos - talvez dois ou três no máximo - não conseguia mais disfarçar minha vontade. Naquela posição quase perfeita, ela retribuiu minha atenção com um movimento dos quadris para trás, curvado e constante. Foi muito natural e - lentamente - fizemos amor no tempo e ritmo do nascer do sol.
Sem pressa e com a mesma voz doce que havia me conquistado ela me pediu que espalhasse meu amor por suas costas e a abraçasse novamente, unindo nossos corpos pelo aroma impregnante do amor completo, pelo êxtase dos nossos corpos suados, pelo calor de nosso amor.
Meio sonolento, o filme do teto estreou nas telas internas das minhas pálpebras e a vi novamente falando na beleza do meu rosto limpo com água e sabão.
Dali, fomos de ônibus - ela pagou a passagem - para sua casa. Mesmo sendo muito longe, eu desejava que a linha daquele ônibus tivesse o ponto final no infinito. Ela me fazia perguntas, interessada, queria saber da minha vida, dos meus sonhos e, aos poucos, eu ia respondendo cada vez com mais palavras, com mais ânimo. As frases foram se desprendendo da minha boca, minha máquina de pensar começou a trabalhar melhor com o óleo lubrificante das questões intrigantes e inteligentes daquela benção com vida.
Para minha infelicidade, a casa despontou a dois quarteirões do ponto onde descemos. A luz que a lua dividia com as estrelas e os postes indicava o caminho e eu flutuava ao seu lado. Ela morava com a avó, que, carola da missa das sete, dormia cedo e naquela noite perfeita não foi diferente.
Ela tirou os sapatos para fazer silêncio - eu flutuava - e encostou a porta da frente atrás de si como quem deita uma criança com sono no berço. Quietos, entramos no quarto. Voltei a tremer e congelei. Fechei os olhos, enquanto ela me despia quebrando o gelo com seu sorriso sem culpa.
Envergonhado, fui empurrado para o chuveiro e tomei o primeiro banho decente da minha vida. A água cristalina, benta mesmo, lavava toda a minha tristeza, meu desespero. Escorria com a sujeira todos meus pensamentos pessimistas, minha vontade de morrer, minhas impurezas. Grudava no sabão minha arrogância, minha petulância e tudo que de mais podre havia em mim para ser sugado pelo ralo, com prazer.
Saí do banho realmente bonito. Não pela minha beleza física - embora não fosse muito feio mesmo - mas pela leveza de quem planeja um futuro feliz. Ela sorriu ainda mais - pensei que não fosse possível - e me abraçou demoradamente como a um irmão que volta de longa viagem.
Aproveitei o abraço espiritualmente, mas não pude evitar meu desejo sexual. Ela, que não esperava aquilo, por um momento demonstrou hesitação no abraço, mas aos poucos foi se soltando e devolveu meu beijo. Na boca.
Ah, o beijo na boca! O momento mágico da definição, da confissão, da entrega total! O beco sem saída, o ponto sem retorno do beijo na boca. O sexo quase deixa de ser importante perto do beijo na boca. O ápice da intimidade, por onde se trocam verdadeiramente os sentimentos, quando se percebe com convicção a compatibilidade dos seres. O beijo na boca é o eloqüente silêncio que diz tudo que se quer dali em diante. Pode ser o primeiro passo de uma longa caminhada ou o abismo sem fim.
Nosso beijo foi tão sincronizado, tão estimulante, que foi impossível não planejar viagens, escolher nomes de filhos, confessar desejos secretos. Estávamos gozando a felicidade plena da esperança no futuro.
O filme do teto então avançou rapidamente até o momento atual para não perder a melhor cena: o sorriso de paz da minha amada, extenuada e satisfeita com o clarear do dia, após uma incrível noite de amor coroada pelo sexo matinal.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
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